Análise de traços por ICP-MS em petróleo e biocombustíveis

Concentrações de Ni, V, As e Hg em nível de ppb decidem a vida útil de catalisadores, e a especiação elementar explica o motivo

Eduardo Barbosa

13/07/2026

13/07/2026

7 min de leitura

análise de traços por ICP-MS

A análise de traços por ICP-MS decide se um elemento crítico aparece no laudo ou passa despercebido. Um petróleo pesado pode carregar níquel e vanádio em concentração de poucos miligramas por quilograma. É pouco na balança. Mas é o suficiente para desativar um catalisador de hidrotratamento em poucos meses de operação.

A mesma lógica vale para biodiesel, óleo de pirólise e bio-óleos. Elementos presentes em faixas de ppm a ppt decidem se um combustível vai estabilizar em estoque ou formar depósito no motor. E, quanto mais a indústria avança para combustíveis limpos e matérias-primas renováveis, mais variável fica a composição das amostras.

O problema: por que a análise de traços por ICP-MS importa em petróleo e biocombustíveis

A composição do petróleo e dos biocombustíveis é majoritariamente orgânica. Ainda assim, pequenas quantidades de metais, semimetais e outros heteroátomos concentram boa parte do risco operacional. Elementos como Ni, V, As, Hg, Fe, Ca, Mg, Na, P, S e Si aparecem em faixas amplas. Vão de miligramas por quilograma (ppm) a nanogramas por quilograma (ppt). Cada faixa exige um nível diferente de sensibilidade analítica.

Chainet et al. (2019) associam o monitoramento desses elementos à prevenção do envenenamento catalítico, ao controle de corrosão e à redução de emissões. Também o ligam à caracterização geoquímica de reservatórios. Ni e V aparecem com frequência em petróleos pesados na forma de complexos organometálicos. Por isso, desativam catalisadores de hidrotratamento e conversão. Enxofre, ferro e silício, por sua vez, favorecem depósitos, incrustações e corrosão em equipamentos de processo.

Em combustíveis e biocombustíveis a consequência muda de nome, mas não de gravidade. Martínez, Sánchez e Todolí (2022) mostram que metais e metaloides presentes em bio-óleos e óleos vegetais aceleram oxidação e degradação. Também favorecem depósito em sistemas de combustão e comprometem desempenho de motor. Alguns desses elementos ainda carregam toxicidade ambiental relevante.

A transição energética aumentou a pressão sobre esse controle. Óleos de pirólise, óleos de liquefação hidrotérmica e biodiesel têm composição inorgânica que depende da biomassa de origem e das condições de processo. Por isso, Ruiz et al. (2023) apontam que a falta de metodologia padronizada ainda limita a expansão industrial dessas rotas.

Por que o ICP-MS substitui a espectrometria ótica

O plasma indutivamente acoplado (ICP) é a base da determinação multielementar em petróleo, combustíveis e biocombustíveis. A diferença entre ICP-OES e ICP-MS está no que cada técnica detecta depois da excitação.

O ICP-OES lê a radiação emitida por átomos e íons excitados no plasma. O limite de detecção típico fica na faixa de µg/L. Já o ICP-MS detecta diretamente os íons gerados no plasma. Isso reduz o limite de detecção em até mil vezes. A amostra é vaporizada e decomposta em íons pelo plasma. Depois, uma célula de colisão remove átomos neutros e íons poliatômicos indesejados. Em seguida, um analisador de massas tipo quadrupolo direciona os íons de interesse ao detector.

Essa sensibilidade extra pesa exatamente onde a matriz orgânica é mais complexa. As, Hg, Ni, V, P, S e Si aparecem em concentrações baixas, mas com impacto desproporcional sobre refino e desempenho catalítico. Por isso a análise de traços por ICP-MS ganha o espaço que a espectrometria ótica não alcança nessas concentrações. Frente ao ICP-OES e à absorção atômica, o ICP-MS entrega limites de detecção na faixa de ng/L ou inferiores. Também oferece determinação multielementar simultânea e análise isotópica.

Estudos de determinação multielementar em petróleo bruto combinam sistemas de amostragem orgânica com ICP-MS. Assim, medem dezenas de elementos em nível de ultra-traço numa só corrida. O tempo analítico cai frente à digestão ácida convencional (Expec Technology). Essa vantagem tem contrapartida: a carga orgânica elevada de petróleo e biocombustíveis cria um problema próprio, tratado a seguir.

O desafio das interferências poliatômicas em matrizes orgânicas

Carbono, oxigênio e enxofre em excesso formam espécies poliatômicas dentro do plasma. Essas espécies interferem diretamente na leitura de vários analitos. Si, P, Se e As sofrem esse efeito com mais frequência. O motivo: suas massas coincidem com as de íons poliatômicos gerados pela própria matriz.

O ICP-MS/MS resolve isso com dois quadrupolos, ou mais, separados por uma célula de reação. Gases como O2, H2 e NH3 reagem de forma controlada dentro dessa célula. Assim, eliminam a interferência espectral antes que ela chegue ao detector. Trabalhos recentes mostram determinação confiável de S, P, Si, As, Ni e V em combustíveis e derivados de petróleo por essa via. Os limites de detecção ficam, com frequência, na faixa de ng/kg.

Martínez et al. (2022) combinaram ICP-MS/MS com sistemas avançados de introdução de amostra. Dessa forma, reduziram o efeito de matriz. Isso permitiu analisar diretamente derivados de petróleo, óleos vegetais e óleos de pirólise, com preparação de amostra mínima. Na prática, isso significa menos etapas de preparo e menos oportunidade de perda do analito antes da leitura.

Especiação elementar: a concentração total não conta a história completa

Saber quanto níquel existe numa amostra raramente responde à pergunta que interessa à planta. O que muda o comportamento tecnológico e ambiental de um elemento é a forma química em que ele está. Reatividade, mobilidade, toxicidade e comportamento catalítico variam de espécie para espécie, mesmo dentro do mesmo elemento.

Chainet et al. (2019) usaram cromatografia por permeação em gel acoplada a ICP-MS/MS (GPC-ICP-MS/MS). A técnica mapeia como Ni e V se distribuem entre frações moleculares em petróleos pesados. Isso inclui a associação desses metais a compostos porfirínicos de alta massa molecular. Esse mapeamento orienta a escolha de catalisador. Afinal, a mesma concentração total de Ni pode representar riscos muito diferentes, dependendo de como o metal está ligado.

Situação parecida ocorre com arsênio em óleo de pirólise de pneus. Todolí-Carbonell et al. (2025) avaliaram um sistema de introdução de amostra com torch de alta temperatura acoplado a ICP-MS/MS. O motivo é simples: a concentração de As varia amplamente entre lotes desse óleo. E a matriz é complexa demais para métodos convencionais capturarem o elemento em nível confiável.

Boas práticas para a análise de traços por ICP-MS em matrizes orgânicas

Quem trabalha com controle de qualidade de petróleo, combustíveis e biocombustíveis tem alguns pontos de atenção recorrentes:

  • Priorizar ICP-MS/MS em matriz com carga orgânica elevada. A célula de reação com gases controlados (O2, H2, NH3) remove interferências que o ICP-OES e o ICP-MS de quadrupolo simples não eliminam.
  • Usar sistema de introdução de amostra dedicado a matriz orgânica. Assim, reduz o preparo de amostra e o risco de perda de analitos voláteis como Hg e As.
  • Seguir normas reconhecidas para a técnica, como EPA 200.8, EPA 6020B e ISO 17294, documentando limite de detecção e de quantificação para cada elemento monitorado.
  • Investigar especiação, não só concentração total, quando o elemento tiver relação direta com desativação de catalisador (Ni e V) ou risco regulatório (As e Hg).
  • Rastrear calibração e validação de método conforme ISO/IEC 17025, sobretudo em laboratório que reporta resultado para especificação ANP.

Essas práticas garantem que a análise de traços por ICP-MS entregue resultado confiável, não só sensível. É essa diferença que separa laboratórios que detectam contaminação a tempo de agir. Os demais só percebem o problema depois que o catalisador já desativou.

Como a Alutal SCI apoia essa aplicação

A Alutal SCI representa no Brasil o portfólio da FPI, fabricante da marca EXPEC. São instrumentos voltados para esse tipo de determinação multielementar em matriz complexa.

O espectrômetro ICP-OES EXPEC 6500 atende a análise de rotina de elementos em concentração mais alta. Já o espectrômetro ICP-MS SUPEC 7000 entrega o salto de sensibilidade descrito neste artigo, com detecção direta dos íons gerados no plasma. É o equipamento indicado quando o laboratório precisa levar a análise de traços por ICP-MS a nível de ultra-traço.

Para quem lida com as interferências poliatômicas de petróleo e biocombustíveis, a linha inclui ainda o ICP-MS/MS SUPEC 7350. Ele tem célula de reação e dois analisadores de massas em arranjo tandem, a mesma configuração dos estudos de especiação elementar citados aqui. Essa opção ainda não tem página própria publicada no site. Para maiores detalhes sobrre este equopamento, entre em contato com nosso time de vendas pelo formulário de contato ou pelo email: vendas.sci@alutal.com.br

Fale com a Alutal SCI

Um catalisador que desativa antes do previsto custa caro. Um lote de combustível reprovado por não conformidade regulatória, também. Por isso vale aplicar a análise de traços por ICP-MS como parte da rotina de controle de qualidade. Fale com a equipe técnica da Alutal SCI e solicite um orçamento para o seu laboratório.

Eduardo Barbosa

Mestre em Química Analítica pela UFPR e Especialista em Engenharia de Manutenção pela PUC-PR, trabalha há mais de 20 anos com Instrumentação Analítica de Laboratório e Processo. Atua na promoção e vendas do portfólio de equipamentos de laboratório, identificando novas oportunidades de negócios e parcerias estratégicas em Química Analítica.

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